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sábado, 6 de fevereiro de 2010

As mulheres da minha família

As mulheres da minha família se recortam em pedaços e em colcha transformam-se em mim. Das que viveram na minha história e me marcaram com um sobrenome tamanho. Tenho uns signos e encantos que carrego como tesouros, são risadas e tiques, dos gostos herdados e joelhos tão redondos.
São Amanda e Josefa sedutoras quanto poesia. As vaidades em pequenos detalhes de unhas pintadas de vermelho, em frases sobre o sexo e nos olhares perdidos na multidão. Amores são assuntos prediletos. Decotes, vestidos e rendas. Passionais como perfumes doces. São de adeus e boas vindas, paz e guerra. Sorrisos Altos. Beijos jogados ao vento.
Tem Severina e Luzia calmas, brandas e sofridas. Um pouco de Deus no canto da vida e muito de amor pelos filhos. Flores, crochê, chás, alecrim e erva cidreira. Como não amá-las? Limites fortes e horizontes pequenos, coisas de jardim ou paraíso privado. Mas quando lá se fixa, se fica, se em paz...como cama quente em dia de chuva.
E fica assim um pouco delas em tudo. Um tanto de silêncio em boca vermelha. Outro de acolhida em despedidas. Armário embolorado com roupas novas. Da malicia serena, de jardins públicos, dos traçados das pernas, das delicias e dores herdadas. Meu livro está assim, recortado em sinestesias e escrito a dez mãos.
Rocha, Ana Laura.